quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Vivendo dentro de seus limites: Considerações sobre a empresa Researh In Motion*

Prof. Aswath Damoraran**

Eu tenho uma filha de 16 (dezesseis) anos que me chama de “velhinho” e,  mesmo sabendo que ela está usando este termo amorosamente, isto me fez refletir sobre a realidade de estar ficando mais velho e que a idade traz limites que eu não devo correr os riscos de ignorar. Sei que não posso mais ir pra cama tarde e acordar cedo, não posso de dar ao luxo de comer qualquer tipo de alimentação, nem tampouco dispensar os óculos para ler os menus dos restaurantes.
Em novembro de 2011, assisti às “contorções dolorosas” que a empresa canadense Research in Motion (RIM), mais conhecida pela produção do celular BlackBerry, sofreu no mercado financeiro e logo lembrei que as empresas, como os seres humanos, também passam por um processo de envelhecimento e que a forma como elas lidam com este processo determinam o quanto valem, sob o ponto de vista dos seus investidores.
A RIM teve em 2011 um excelente desempenho enquanto empresa, mais ela tem um problema: Seus principais recursos, quase todos oriundos da tecnologia  BlackBlerry, estão se perdendo na segmentação do mercado, tendo em vista que os usuários dos smart phones estão migrando para os Androids e iPhones, que possuem sistemas operacionais mais abertos e bibliotecas de aplicações extensivas.
Só existem duas escolhas para a empresa RIM:
•    Buscar o crescimento: Investir uma grande parcela do fluxo de caixa oriundo da tecnologia BlackBerry em pesquisa e desenvolvimento (P&D), bem como em novos produtos, esperando com isto um avanço na sua própria tecnologia. Entretanto, a RIM deve ter em mente que está competindo contra duas grandes empresas, Apple e Google, que têm mais recursos e imaginação que ela.
•    Buscar recursos: Aceitar que tem um produto com vida limitada, mas fluxos de caixa sólidos. Investir o bastante para manter este produto sob controle e capaz de continuar gerando um fluxo de caixa dentro de um futuro próximo, de tal forma que possa ainda investir em outros produtos e novas tecnologias. Deve ainda mudar sua estrutura de capital e política de dividendos, de forma que possa refletir o seu novo status, através do uso de mais recursos de terceiros para financiar seus investimentos e do aumento dos dividendos pagos aos acionistas. Deste modo, a empresa estará, com efeito, se auto-liquidando até o fim da vida útil do BlackBerry, e mesmo que os preços de suas ações se aproximem de zero, seus investidores terão adquirido bastantes recursos para não se preocuparem.
No início de 2011, a RIM obteve um lucro operacional bruto de US$ 4,6 bilhões e um lucro líquido de US$ 3,4 bilhões, mas estas receitas foram após as despesas com P&D, de US$ 1,4 bilhões. Entretanto, os lucros da RIM diminuíram rapidamente nos dois últimos trimestres de 2011, podendo parte desta queda ser atribuída à perda de mercado dos Blackberries, como também a prejuízos no lançamento de novos produtos, tais como o Playbook Tablet. Deste modo, vamos ser conservadores e assumir que o lucro operacional de 2012 deverá ser menor que US$ 2,5 bilhões, e que a RIM, caso não acredite no desenvolvimento de novos produtos, possa cortar US$ 1 bilhão em P&D. Assim, os diretores da RIM não devem ter a ilusão de que poderão trazer de volta os dias de gloria.
Eu penso que o mercado está alicerçado na expectativa de que a RIM continuará sem tomar medidas contra o seu envelhecimento, ou seja, continuará agindo como se fosse uma empresa em crescimento, cujos dias gloriosos continuarão a existir no futuro. Por fim, alerto aos diretores da RIM que, ao invés de lutarem contra as críticas ao seu produto (taxado de fechado, corporativo e limitado), aceitem-nas.
Retornando à questão da velhice levantada no início deste artigo, a RIM precisa entender a necessidade de se renovar completamente, caso contrário, é melhor admitir que está uma empresa decrépita cujo fim é uma mera questão de tempo.

* Artigo original “Living within your limits:Thoughts on Research In Motion”, disponível no blog aswathdamodaran.blogspot.com e traduzido pelo Adm. Vinicius Caldas, com pequena alterações.
**Professor de Finanças da Universidade de Nova Iorque.

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